Retalhos de uma vida 

  As viagens eram sempre um retorno às origens, ao cerne do quotidiano que passava sem se ver.  

    Madrugada cedo, o serralheiro da aldeia (atualmente, profissão conhecida como mecânico), dos poucos que tinham carta de condução naquelas bandas, carregava as malas na caixa do seu jipe, abria a porta para o banco traseiro e lá íamos nós de volta à cidade. Mas não era uma cidade já ali, ficava a um dia de viagem de comboio pelo que, ainda pequenas, sabíamos o que significava a viagem de regresso: despedidas rápidas, viagem de carro até à estação dos comboios, refeições avulso, primeiro comboio, dormida no beliche do comboio, espera ansiosa pela próxima carruagem, segundo comboio, carregar malas e viagem de autocarro até casa. Esta era a rotina que, apesar da tenra idade, já conhecíamos, no entanto, nem sempre pacífica, nem sempre rotineira, nem sempre enfadonha... 

      Certa vez, na mudança de um comboio para o outro, numa cidade qualquer de Espanha, em pleno inverno, os pés gelados, as mãos roxas, os gorros enfiados até às orelhas, aquecíamo-nos com um café tépido guardado na garrafa térmica das andanças. Enquanto guardávamos as malas (era a nossa principal incumbência), os pais tentavam perceber o que fazer, com quem falar, para onde nos dirigirmos...quando, de repente, uma voz estridente anuncia uma partida, então... as malas são agarradas à pressa, corremos de mãos dadas para não ficar para trás e conseguimos entrar na carruagem. Uma carruagem repleta de caras ansiosas que não guardavam assentos a ninguém, que não se condoíam com as dores alheias, um espaço exíguo no corredor que suportámos durante horas a fio, em pé, até chegarmos ao nosso destino. Enfim, foi o preço a pagar pela greve dos transportes. 

     Depois, eram os rostos que se tornavam familiares durante horas, que povoariam o nosso imaginário e as nossas conversas durante dias, talvez até meses, mas que, a certa altura, se desvaneceriam: aquele miúdo gorducho que não parava de tagarelar, aquela senhora refinada que tinha um creme para cada parte do corpo, aquele velho resmungão que ressonava cada vez que fechava os olhos, o revisor simpático e brincalhão, aquela rapariga que dormia no beliche abaixo do meu...e aquela altura em que adormeci no beliche mais alto e acordei em cima de um monte de sapatos...desnorteada fui abanar a mão da minha mãe que, afinal, não era a minha mãe pois, no escuro, num espaço alheio, facilmente a confusão se instala na nossa mente e os nossos olhos tentam ver o que não alcançam. No final, ficou tudo bem! 

     No decorrer da viagem de comboio faziam-se as refeições, o pitéu que se levava da horta da tia, do forno do vizinho, da frigideira da avó, ... os pastéis de bacalhau, o pão de ló, a chouriça que se defumara nos meses de inverno e o pão cozido em forno de lenha. Quando não se tem mais nada para fazer, apenas ouvir a conversa do lado, olhar para a paisagem que corre, escutar a cantiga do comboio e dormitar, o momento da refeição torna-se no ponto alto da viagem e damos por nós a saborear cada instante.  

     As viagens repetiam-se no verão, para passar as ditas férias de regresso do emigrante, e no inverno, para partilhar o Natal, a consoada, o abraço apertado, os votos de um bom ano. Foi num desses momentos que se criou outra memória interessante, aquando da incursão à horta com a tia surgiram os desejos de umas boas entradas à vizinha com a tradicional despedida “Até para o ano” e eu dei por mim a pensar que aquela senhora partiria, tal como eu, e só regressaria passados muitos meses...enfim, vim, mais tarde, a perceber que essa era apenas mais uma forma simpática de despedida na véspera da mudança de ano; assim se constroem as aprendizagens, baseadas nas memórias de infância, conclui!

     Cada viagem era um regresso; ora um retorno às origens dos nossos pais que nos haviam de acolher dali por uns anos, ora um regresso à vida que se construía numa terra alheia que me viu nascer, crescer e construir o meu âmago. Tenho talvez poucas memórias dos meus tempos de miúda. Memórias felizes? Algumas! Marcantes? Certamente! Hoje sei que o caminho se constrói de memórias e retalhos e que, todo aquele caminho que nos levava de volta, a mim e à minha irmã, também nos marcou, fez de nós as pessoas que somos hoje.  


 

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