Artur

    Artur era um jovem curioso. Sei que já vos tenho falado de pessoas diferentes, de pessoas que sentem e vivem à sua maneira, pelo que não poderia deixar de vos falar acerca do Artur.  
    Nascera numa família numerosa, como tantas outras. Numa família em que ter o estatuto de filho mais novo pode não ser uma tarefa fácil quando tantas vozes se levantam e se querem fazer ouvir. Talvez por isso, Artur fosse um miúdo de poucas palavras, mas de muitos sonhos, de muitas curiosidades, com uma vontade imensa de abraçar desafios e, se pensam que veio a descobrir esta veia apenas quando cresceu, estão enganados! Desde muito pequeno que o menino ficava calado, sentado (quando ainda não sabia andar) a observar o que o rodeava. Não se aventurava na disputa de um brinquedo sem antes ter feito uma breve análise e ponderação, no fundo, pensar se valia mesmo a pena. Podem achar estranho, mas o Artur era assim. 
    A mãe levava-o de manhã bem cedo para a creche com os seus irmãos gémeos; de seguida, deixava os outros dois filhos mais velhos noutra escola e seguia para o emprego. O pai faria a recolha ao final da tarde. 
    Artur seguia sempre sossegado na sua cadeirinha e olhava pela janela do carro enquanto o mundo passava lá fora. Fora assim que descobrira os pássaros, que vira o verdejante das árvores que balouçavam com o vento, que imaginara formas nas nuvens, que observara o Sol, que vira trovões, que se deslumbrara a cada instante. Enquanto os irmãos choravam ou brigavam ou amuavam, Artur mantinha o seu sorriso e contemplava o exterior. 
    - Artur, meu bonacheirão, quem me dera que, às vezes, os teus irmãos fossem como tu! – suspirava várias vezes a mãe.  
    Em casa, o cenário mantinha-se quase inalterado: a calma do Artur e a agitação e o desassossego dos irmãos, o que exasperava os pais. Aí o pequeno Artur arranjou o seu cantinho num belo e fofo almofadão que a avó costurara. Ia buscar um livro e deliciava-se a olhar para as imagens; mais tarde, quando já sabia ler, devorava cada palavra, cada frase e dedicava-se a conhecer cada pormenor. Os seus livros preferidos sempre foram as enciclopédias. Começara com as tradicionais para crianças, sobretudo aquelas que dão a conhecer os animais, mas viria a apreciar todas aquelas que lhe davam a conhecer o mundo e as suas invenções. 
    Os pais foram continuamente pressionados pelos miúdos no sentido de adotarem um animal de estimação e resistiram até ao dia em que, finalmente, se deixaram convencer por um gatinho branco de olhos azuis. 
    Nesse dia, Artur exultou, sentiu algo diferente dentro de si, um sentimento inexplicável de proteção e carinho. Apesar de toda a insistência e do desejo de terem um animal de estimação, os pais depressa se arrependeram, as brigas entre os irmãos ganharam outros contornos; brigavam para saber quem daria a próxima refeição ao gatinho, quem brincaria com ele, enfim, brigavam por tudo e por nada, acrescendo o facto de que nem sempre tratavam o animal com afeto. Talvez por isso, quando se via no cerne de toda esta confusão, o bichano procurasse pelo aconchego do colo do Artur. Esses eram momentos de pura felicidade para o menino que se acostumou às demonstrações de carinho do animal e quem os visse sabia que já não passavam um sem o outro. 
    Artur adorava sentir a vibração do seu gato, de lhe acariciar o pelo macio e de brincar com ele. Obviamente que leu tudo acerca de gatos e ficou a saber como proceder em todas as circunstâncias. 
    Com o passar dos anos, aos poucos, os irmãos foram saindo de casa, seguindo as suas ambições e procurando construir o seu futuro. Iam estudar para fora, procurar emprego, arranjar família. 
    Os pais envelheceram suavemente e, em breve, seria a sua vez de procurar o seu destino. O seu velho gato ainda ronronava no seu colo. Artur ainda se deliciava com a sua vibração que, em tempos, quase parecia o ronco de um trator. 
    Certo dia, perdeu-se no olhar do seu gato e, nesse instante, disse-lhe adeus. Nesse dia, Artur ficou inconsolável, mas entendeu que o a sua afeição não ficava por ali, o carinho e o cuidado que dedicou ao seu gato deu-lhe a entender que poderia fazer mais por todos aqueles que precisam de um pouco de ajuda. Foi assim que decidiu tornar-se voluntário num abrigo de animais abandonados. Preencheu uma parte da sua vida ao dedicar-se a uma causa e sentiu-se bem. Os pais apoiaram-no, como sempre o fizeram, e, agora, que não se ouviam permanentemente outras vozes, escutavam o Artur e surpreendiam-se com o seu caráter, com a sua personalidade e com as suas ideias. Ao princípio questionavam-se como crescera aquele filho e depressa entenderam que as circunstâncias da vida, a agitação de cada um dos outros quatro filhos lhes tinham preenchido os pensamentos, pois cada um deles queria atenção, cada um deles lhes exigia uma rápida tomada de decisões. Agora que eles tinham encontrado os seus destinos, podiam finalmente olhar para o Artur e perceberam o quão diferente ele era dos restantes. 
    O Artur sempre fora o menino sossegado, sonhador, interessado em saber tudo. De todas as vezes que os pais planearam um passeio que agradasse ao Artur, tal significava visitar o jardim zoológico, o oceanário ou um parque natural. Nem sempre estes programas contentavam os seus irmãos, mas, nesse aspeto, os pais sempre tinham tentado chegar a todos os seus filhos e a estimulá-los de acordo com os seus gostos. 
    Aquela descoberta do Artur pelo voluntariado não surpreendeu os seus pais, talvez surpreendesse mais o próprio Artur ter percebido o quanto gostava de poder ajudar. Obviamente, não se ficou pelo abrigo de animais, pois, em pouco tempo, percebeu que podia dar mais de si. Assim, procurou instituições que ajudassem pessoas e foi quando deu esse passo que percebeu o verdadeiro sentido que queria dar à sua vida: queria ser missionário. 
    Os pais ficaram surpreendidos; ainda que entendessem o espírito do filho, ainda que entendessem a sua necessidade de ajudar, nunca lhes tinha passado pela ideia que a sua opção de futuro pudesse ser essa, no entanto, apoiaram-no e aprenderam a aceitar a sua decisão. Também ele iria deixar o ninho para cumprir uma nobre missão. 
   A integração do Artur numa ordem foi rápida, a sua preparação e a sua dedicação foram surpreendentes. Daí a pouco tempo, partia um jovem solitário cheio de sonhos, cheio de ambições, mas não eram umas ambições quaisquer, era o desejo de poder fazer a diferença na vida daqueles que precisam de ajuda, de uma palavra, de uma mão, de um abraço pois Artur não partia apenas para ajudar a alimentar e a cuidar do corpo, partia sobretudo para cuidar do espírito dos que precisavam. 


 

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